Quinta-feira 25 de Junho de 2026

XII Congresso Nacional de Geologia

fotoOs mais antigos fósseis conhecidos em Portugal foram apresentados no XII Congresso Nacional de Geologia, revelando novos dados sobre a evolução da vida no território que hoje corresponde à Península Ibérica há mais de 550 milhões de anos.

A investigação, desenvolvida por uma equipa multidisciplinar de instituições portuguesas e internacionais incidiu sobre afloramentos localizados em Penha Garcia e em Salvaterra do Extremo, no concelho de Idanha-a-Nova, integrado no Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO. Os estudos permitiram determinar com elevada precisão a idade dos mais antigos icnofósseis portugueses — vestígios da actividade de animais preservados nas rochas.

Os fósseis foram encontrados na Formação Caneiro, uma unidade geológica do Supergrupo Beiras, e correspondem a marcas deixadas por organismos marinhos que se deslocavam enquanto procuravam alimento nos sedimentos do fundo oceânico. Embora discretos, estes vestígios constituem “uma das mais antigas evidências da presença de animais capazes de modificar o ambiente sedimentar, muito antes da grande explosão de biodiversidade que se deu no período Câmbrico”, referiu o coordenador científico do Geopark Naturtejo, o geólogo Carlos Neto de Carvalho.

Através de técnicas avançadas de datação de minerais conhecidos como zircões presentes nestas rochas (LA-ICP-MS U-Pb), os investigadores conseguiram estabelecer que os sedimentos onde os icnofósseis foram preservados acumularam-se “há cerca de 554 a 559 milhões de anos, durante o Ediacárico, o último período do Precâmbrico”, de acordo com Telmo Bento dos Santos, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Mas a importância da descoberta vai além dos próprios fósseis. Um segundo estudo apresentado no congresso por Martim Chichorro, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, permitiu datar intrusões de rochas magmáticas que atravessam formações geológicas mais antigas da mesma região, restringindo a idade dos depósitos de uma Idade do Gelo muito antiga e dos mais antigosfósseis de atividade microbiana preservados em Portugal. Os resultados sugerem que estes ambientes estavam associados a uma antiga bacia oceânica ativa e relativamente profunda, influenciada por actividade magmática, num contexto geológico ligado à formação de um supercontinente designado pelos geólogos de Gonduana.

1000072463Segundo os investigadores, estes dados agora apresentados à comunidade científica nacional, representam um avanço significativo para o conhecimento do registo geológico e paleontológico português, tradicionalmente pobre em fósseis pré-câmbricos. Até há poucos anos, os únicos vestígios conhecidos deste período em Portugal limitavam-se a raras ocorrências de microfósseis de cianobactérias, os mesmos agora datados por método radiométrico em zircões. De salientar que a região do Geopark Naturtejo, que vai dos concelhos de Penamacor a Nisa e de Oleiros a Idanha-a-Nova, apresenta vastas áreas de “xistos” e metagrauvaques, que só aparentemente se mostram monótonas e ainda são mal conhecidas pelos especialistas. Os estudos agora apresentados e que tiveram início em 2021, com o apoio da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova e da Naturtejo, EIM, permitem melhor conhecer e datar episódios importantes da História da Terra que se encontram no território do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, com múltiplas aplicações que vão da gestão dos recursos geológicos ao geoturismo.

A descoberta coloca o Geopark Naturtejo e a região de Idanha-a-Nova entre os locais de referência para o estudo da evolução precoce da vida na Europa Ocidental, contribuindo para compreender um dos momentos mais decisivos da história do planeta: a transição entre um mundo dominado por microrganismos nos oceanos então existentes, ciclos de alterações climáticas que deram origem a várias Idades do Gelo e o seu contributo para o aparecimento dos primeiros ecossistemas animais complexos. A continuidade dos estudos passa pela sua extensão ao território do Geopark Naturtejo, com a equipa científica a planear novos trabalhos em Segura e Rosmaninhal, bem como nos concelhos de Castelo Branco, Proença-a-Nova e Penamacor.

Os resultados foram apresentados no XII Congresso Nacional de Geologia, realizado na Universidade de Évora sob o tema “Alentejo, onde a Geologia tem Espaço e Tempo”, e reforçam a relevância científica internacional do património geológico português, e do Geopark Naturtejo enquanto território designado pela UNESCO.

Outros trabalhos científicos com a participação do geólogo e paleontólogo Carlos Neto de Carvalho foram também apresentados no maior encontro nacional de geociências, resultantes da colaboração ativa da equipa do Geopark Naturtejo com investigadores associados à Sociedade Portuguesa de Paleontologia e ao Instituto Politécnico de Tomar.

 

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