A Sessão Solene Comemorativa do 52.º aniversário de do 25 de Abril1974, na Assembleia da República marcou a a estreia do Presidente da República António José Seguro nestes atos.
O Presidente da República proferiu um discurso, muito centrado em preocupações que já tinha mencionado durante a sua campanha eleitoral.
Mencionando na abertura da sua intervenção , os valores de abril
“A Liberdade é tão natural como a nossa vida.
A Democracia, a Justiça Social, a Igualdade são valores que fazem parte da nossa identidade coletiva.São os elos que dão coesão à nossa sociedade, como se fossem uma segunda Terra Mãe, o nosso chão comum.”
António José Seguro reforçou de uma forma constante ao longo das suas palavras as ligações aos valores de abril, que permitem a realização da cerimónia e todo o seu conteúdo,
“O ponto de partida, o 25 de Abril de 1974, é de valor inquestionável.
Reúne um apoio esmagador, intergeracional e, de tão virtuoso, que o assumimos como natural.
Tão natural como o ar que respiramos. É o caso desta sessão solene.
O que ouvimos hoje nesta Assembleia, é Abril.Todas e todos podem manifestar as suas opiniões devido à liberdade de pensamento e de expressão conquistadas em Abril.
Todos podem escolher livremente os seus representantes na Assembleia da República, como sucedeu há exatamente 50 anos com as primeiras eleições Legislativas.
Somos iguais e livres, no pensar, agir, criar, no ser e no amar.
Esta é a liberdade que o 25 de Abril nos deu.”.
A preocupação com as novas gerações e os jovens que não viveram o dia, também é realçado na sua intervenção.
“Sei que vários dos desafios que enfrentam são duros. É verdade que é a geração com mais instrumentos, mais conhecimento e mais conexões do que qualquer outra na história deste país.
Todos nós temos a obrigação de deixar um legado de qualidade de vida aos nossos filhos e o Estado tem a obrigação de corresponder ao desejo das novas gerações de combater o desafio das alterações climáticas.
Também não podemos esquecer ou deixar no silêncio outros fenómenos que surgem com maior incidência nas gerações mais novas, como é o caso da saúde mental.
Um sofrimento de silêncios: nas estatísticas, nas salas de aula, no emprego, nas famílias.
O sofrimento de uma geração que está a crescer nas incertezas de uma pandemia, do clima, das guerras ou do trabalho precário.
Os governos não podem desprezar novas valências no Serviço Nacional de Saúde e é imperativo reforçar a formação e o investimento na saúde mental.
A liberdade de hoje, em particular dos mais jovens, é também a liberdade de ter uma habitação digna, sem a qual o projeto de vida das novas gerações fica suspenso.
Temos hoje jovens que trabalham e aos 30 anos ainda vivem na casa dos pais por impossibilidade de adquirirem ou arredarem uma habitação. Isto não é apenas um problema de mercado. É um direito que o Estado tem de salvaguardar. É uma exigência de liberdade.
Temos hoje jovens licenciados, com mestrados e doutoramentos, cujas competências são valorizadas no mundo inteiro e em Portugal ganham salários que não chegam para terem uma vida minimamente confortável.
Quando o talento não é recompensado em Portugal, não é só uma injustiça económica, é uma perda irreparável para o país.
Nenhum país se constrói assim.
E nenhum Presidente pode aceitar isso em silêncio. Eu não o aceito.
Tudo devemos fazer para que os jovens encontrem em Portugal o lugar onde querem construir as suas vidas.
Se Portugal deu novos mundos ao mundo, hoje temos a obrigação de dar novos mundos aos portugueses – aqui em Portugal.”
e António José Seguro, acrescentou mais à frente,
“Eu não venho pedir-vos que amem o 25 de Abril.
Não tenho esse direito.
Ninguém ama por decreto ou procuração aquilo que não viveu.
Quero apenas dizer-vos de um modo simples:
Quando deixaste de ser obrigado a combater, ir para a guerra – foi Abril.
Quando conduzes um carro e não precisaste de autorização do teu marido ou da família – foi Abril.
Quando és mulher e viajas sem ter de pedir autorização ao teu companheiro – foi Abril.
Quando optas por uma carreira de magistrada ou diplomata e és mulher – foi Abril.
Quando a tua mãe e o teu pai foram à urgência e não lhes pediram que pagasse antes de ser tratada – foi Abril.
Quando a tua liberdade apela a propor, participar ou assinar uma petição – foi Abril.
Quando leste ou partilhaste uma notícia crítica do poder e ninguém bateu à tua porta – foi Abril.
Quando votaste, ou decidiste não votar, sem medo de represálias – foi Abril.
Abril está nos gestos. Faz parte da tua vida, porque tens liberdade.
Mas há uma coisa que a minha geração aprendeu: a liberdade não desaparece de uma só vez.
Desaparece aos poucos.
Primeiro é uma lei que parece razoável.
Depois uma instituição que se esvazia por dentro.
Depois uma voz que deixa de se ouvir.
Depois outra.
O perigo para a democracia raramente chega como nos filmes.
É mais frequente afirmar-se com argumentos que parecem inofensivos e, nos dias de hoje, também com algoritmos.
Sei que muitos de vós desconfiam da política.
Percebo as razões.
Sim, a democracia tem falhas, às vezes desilude. Mas ainda é o único lugar onde a nossa voz conta de verdade.
Fora dela não há mais justiça nem mais liberdade.
Há silêncio, há medo e imposição.
E se queremos uma política melhor, não é afastando-nos da política que a mudamos – é participando, tendo coragem para a transformar por dentro.
Por isso, o meu apelo: estejam atentos.
Quando virem um direito fundamental a ser anulado, denunciem alto o que viram.
Quando a intolerância esmaga a cidadania, espalhem o alerta – porque rapidamente a noite se apodera do dia.
Quando ouvirem a palavra liberdade a ser usada para a restringir – defendam-na.
Quando sentirem que o insulto substitui o diálogo – continuem a dialogar.
Quando sentirem que a vossa voz não conta, não se calem – falem mais alto.
Abril não precisa de guardiões solenes.
Precisa de cidadãos atentos, livres e com capacidade crítica.”
Foi uma intervenção cheia de mensagens e ” recados” como:
“A liberdade, neste contexto, exige transparência, responsabilidade e escrutínio democrático sobre estas tecnologias. Não podemos aceitar que decisões com impacto na vida das pessoas sejam opacas ou incompreensíveis. A liberdade implica garantir que a tecnologia serve o ser humano – e não o contrário.
A liberdade também exige responsabilidade e instituições íntegras. Não há verdadeira liberdade sem transparência no exercício dos cargos públicos. Os cidadãos têm o direito de saber como são tomadas as decisões que afetam as suas vidas.
A transparência nos donativos políticos é essencial para garantir uma democracia saudável e justa. Quando o financiamento é claro e acessível, os cidadãos conseguem compreender quem apoia quem e com que interesses.
Tornar públicos os donativos não é uma questão administrativa, é um compromisso com a ética e respeito pelos portugueses.
Porque onde há opacidade, cresce a suspeita; onde há clareza, fortalece-se a legitimidade.”.



