Cumprem-se, este domingo, 50 anos desde que Carlos Lopes conquistou a primeira medalha de prata para o atletismo português, depois de ser segundo classificado nos 10.000 metros dos Jogos Olímpicos de Montreal (Canadá), prova que teve lugar em 26 de Julho de 1976.
Uma prata que teve um sabor “amargo” considerando a comparação entre os portfólios apresentados por Carlos Lopes (28.04,53 na eliminatória) e Lasse Viren (o finlandês que se alimentava de leite de Rena, que fez 28.14,95 noutra eliminatória), com o campeão luso a valer mais em termos de registo pessoal.
Como se foi comprovando ao longo da corrida, Lopes foi sempre a comandar e a fazer “esticar” a velocidade a partir dos 5.000, forçando aos 7.200 metros e aumentando ainda à entrada do último quilómetro, com a quase certeza de que o ouro estaria ao peito.
Mil metros que foram de plena estupefação, porquanto o finlandês – nesta altura a correr como que voando sobre um ninho de cucos, velozmente – deu “à corda” e conseguiu ultrapassar Lopes nos últimos metros, com 27.45,17 (recorde de Portugal por larga margem) para os 27.40,38 de Viren. Ainda está nas “nuvens” (internet) porque Lopes não venceu.
Fica (continua) o registo, conhecido, de que o vencedor não foi ao controlo de dopagem, mas Lopes tinha de ir. Do resto, ninguém sabe o que aconteceu.
De grande fibra, força física e, em especial, mental, Carlos Lopes ficou abalado, mas mais forte para encarar oito anos de espera, no mínimo, para atingir o ouro olímpico em 1984.
Lopes também foi o primeiro campeão mundial do desporto em Portugal
Mas este ano de 1976 teve outras vitórias de grande impacte, fazendo também história no desporto português, como foi a conquista da primeira medalha de ouro para Portugal depois de Carlos Lopes se ter consagrado como o primeiro campeão do Mundo de Corta-Mato, ao ganhar o título na competição realizada em 28 de fevereiro de 1976, na cidade de Chepstow, no País de Gales.
“Não sendo favorito” – dizia o saudoso Prof. Moniz Pereira, o técnico responsável pelas primeiras três medalhas conseguidas por Carlos Lopes e para o atletismo português – “o Carlos tem competência para se tornar campeão, mas não devemos divulgar para não assustar os adversários”. Bem à Moniz Pereira, com fui constatando desde que me iniciei (1962) como atleta, sendo treinado também pelo Mestre, até ter falecido.
Tática definida, pernas para correr e toca a “fugir” para triunfar à vontade e dar mais uma alegria ao país e Carlos Lopes recebeu do Duque de Gloucester (País de Gales) a referida medalha de ouro, então pioneira no desporto nacional, recordando-se ainda que este novo campeão foi o mais velho (29 anos e 10 dias) a conquistar o título de campeão mundial nessa altura.
Mas na base desta evolução, duas situações se verificaram que tiveram resultados quase imediatos: a primeira, depois de Melo de Carvalho, na altura Diretor-Geral dos Desportos, ter divulgado que o plano de preparação olímpica para os Jogos Olímpicos de 1976, apresentado por Moniz Pereira, tinha sido aprovado pelo governo;
Segundo, porque o atletismo estava numa fase ascensional, de onde nasceu (como que acoplado aos êxitos alcançados por Manuel Faria e Carlos Lopes na São Silvestre de São Paulo (Brasil), a Corrida de São Silvestre da Amadora (31 de dezembro de 1975), onde Carlos Lopes foi a figura de proa e venceu, como que a preparar o caminho para a medalha nos Jogos Olímpicos de Montreal.
Com todo este enleamento, encantamento e História, estas datas não podem, não devem, ser uma mera recordação, mas, antes, marcos de um Carlos Lopes campeão, um ser humano que não renega as origens e tem mostrado que é um português de palavra, que comprovou que os pobres podem vir a serem ricos em atos e ações de valor incalculável para o seu país.
Quer internamente que, em especial, externamente, tendo sido, não há dúvida, o embrião maior do nascimento dos campeões europeus, mundiais e olímpicos que Portugal tem na História de um país à beira-mar plantado, de descobridores de outras terras, qual Vasco da Gama e outros marinheiros de alto valor moral, guerreiro e social e eternamente acolhedor!

