Segunda-feira 14 de Setembro de 2026

Xistos da Beira Baixa com reconhecimento internacional

Investigadores portugueses e espanhóis estudam em campo as rochas mais antigas do território e preparam futura excursão científica internacional no Geopark Naturtejo, Segura, Salvaterra do Extremo, Penha Garcia, Rosmaninhal, Monforte da Beira e Perais foram alguns dos locais visitados durante os dias de trabalhos de campo do projecto GEOCHRON – “Geocronologia das Rochas e Fósseis mais Antigos da Península Ibérica”.

Geossitio do Parque de Merendas de Perais

Geopark Naturtejo

A campanha reuniu investigadores de várias instituições portuguesas e espanholas com o objectivo de aprofundar o conhecimento sobre a idade, origem e evolução das rochas do agora designado Supergrupo das Beiras e das formações geológicas associadas.

Participaram nos trabalhos investigadores do Instituto Dom Luiz (IDL) – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da GeoBioTec – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade de Aveiro, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Agência de Energia e Geologia, I.P. (LNEG), da Universidad de Extremadura e do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), de Madrid. A nível local, integra o grupo de investigação o coordenador científico do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, Carlos Neto de Carvalho, pelo Serviço de Sustentabilidade e Conservação do Património da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.

O GEOCHRON é uma iniciativa científica dedicada à determinação da idade absoluta das rochas e dos fósseis mais antigos da Península Ibérica, recorrendo sobretudo à geocronologia Urânio-Chumbo em cristais de zircão. Esta metodologia permite estabelecer idades de elevada precisão para rochas magmáticas e contribuir para a compreensão da proveniência e evolução dos sedimentos que constituem algumas das mais antigas sucessões geológicas da região. Este projecto teve início em 2021 e conta com a coordenação dos Professores Martim Chichorro (GeoBioTec – Univ. Nova de Lisboa) e Telmo Santos (IDL – Univ. de Lisboa), com apoios do município de Idanha-a-Nova e da Naturtejo.

Um laboratório natural à escala da Península Ibérica

O território do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, e particularmente o sector fronteiriço do Vale do Erges, constitui uma área de excepcional interesse para este projecto. Aqui encontram-se preservados testemunhos de acontecimentos que remontam a centenas de milhões de anos, incluindo depósitos relacionados com antigas glaciações globais e alguns dos mais antigos vestígios de actividade animal conhecidos em Portugal.

Durante a campanha foram observados e amostrados diversos afloramentos entre Segura, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal e Penha Garcia, procurando compreender a sucessão das unidades do Supergrupo das Beiras, a sua relação com as rochas magmáticas e a evolução geológica desta parte da designada Zona Centro-Ibérica.

A investigação pretende responder a questões fundamentais: Qual a verdadeira idade dos xistos da Beira Baixa? De onde vieram os sedimentos que os constituem? Que ambientes existiam quando estas rochas se depositaram? E como se relacionam com as grandes transformações geodinâmicas que afectaram a Península Ibérica e o antigo supercontinente Gondwana?

As respostas poderão contribuir para estabelecer uma escala temporal regional mais precisa e para correlacionar a evolução geológica da Beira Baixa com outras regiões da Península Ibérica e de antigos sectores do Gondwana.

Um novo geossítio no Parque de Merendas de Perais

A campanha permitiu também identificar e caracterizar um novo geossítio no Parque de Merendas de Perais para o Inventário do Património Geológico e Geomineiro do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, acrescentando mais um ponto de interesse à extraordinária diversidade geológica do território.

Geodiversidade de Segura

Geopark Naturtejo

A caracterização de novos locais de interesse científico constitui uma das dimensões importantes do GEOCHRON. Para além da determinação das idades das formações geológicas, o projecto pretende identificar e fundamentar cientificamente geossítios de relevância nacional e internacional, contribuindo para futuras estratégias de conservação, interpretação e valorização do património geológico.

O novo local de Perais será agora alvo de uma análise mais aprofundada, integrando a informação de campo com os resultados petrográficos, geoquímicos e geocronológicos já conhecidos e que vierem a ser obtidos.

Da investigação de campo a uma excursão científica internacional

Um dos objectivos concretos desta campanha é igualmente a preparação de uma excursão científica internacional, a realizar no território português no âmbito do International Meeting on the Cadomian Orogeny in Iberia, previsto para Setembro de 2027, em Guadalupe, na Extremadura espanhola.

A intenção é que investigadores provenientes de diferentes países possam conhecer directamente os afloramentos que estão a ser estudados pelo GEOCHRON, incluindo os sectores do Vale do Erges e das áreas envolventes. O projecto prevê explicitamente a preparação desta field trip em território português, com particular enfoque no concelho de Idanha-a-Nova, por razões científicas e logísticas.

A inclusão da Beira Baixa no programa desta reunião científica poderá representar uma importante oportunidade para dar a conhecer internacionalmente um património geológico que permanece pouco conhecido fora e mesmo dentro dos círculos especializados.

Xistos que contam a história da Terra

Mais do que determinar uma idade para uma rocha, o GEOCHRON procura reconstruir uma parte da história profunda da Terra. A datação dos materiais recolhidos permitirá testar modelos sobre a evolução geodinâmica da Zona Centro-Ibérica, a proveniência dos sedimentos, a formação de antigos continentes e a ocorrência de grandes eventos climáticos e biológicos do passado remoto.

Os resultados serão integrados com informação estratigráfica e paleontológica e deverão ser posteriormente divulgados através de publicações científicas, congressos e recursos educativos. O projecto prevê ainda que os resultados contribuam para novos conteúdos interpretativos e para a formação de professores e visitantes.

Esta dimensão científica assume particular relevância num território como o Geopark Naturtejo, onde a conservação da natureza pode ser entendida de forma integrada, incluindo não apenas a biodiversidade, mas também a geodiversidade — as rochas, os minerais, os fósseis, os solos e as paisagens que registam a história do planeta.

A recente revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030 veio reforçar precisamente este entendimento, reconhecendo a geodiversidade como componente essencial do património natural e o património geológico como um recurso não renovável que necessita de conhecimento, conservação e valorização.

Um novo geossítio no Parque de Merendas de Perais

A campanha permitiu também identificar e caracterizar um novo geossítio no Parque de Merendas de Perais para o Inventário do Património Geológico e Geomineiro do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, acrescentando mais um ponto de interesse à extraordinária diversidade geológica do território.

A caracterização de novos locais de interesse científico constitui uma das dimensões importantes do GEOCHRON. Para além da determinação das idades das formações geológicas, o projecto pretende identificar e fundamentar cientificamente geossítios de relevância nacional e internacional, contribuindo para futuras estratégias de conservação, interpretação e valorização do património geológico.

O novo local de Perais será agora alvo de uma análise mais aprofundada, integrando a informação de campo com os resultados petrográficos, geoquímicos e geocronológicos já conhecidos e que vierem a ser obtidos.

 

Poderão os xistos da Beira Baixa vir a adquirir um reconhecimento internacional à altura da história que encerram?

É uma das perguntas a que o GEOCHRON pretende começar a responder. E os próximos trabalhos de campo no território do Geopark Naturtejo e resultados laboratoriais poderão trazer novas respostas sobre a idade e a origem das rochas que, há centenas de milhões de anos, registaram alguns dos capítulos mais antigos da história geológica da Península Ibérica.

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